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Qual é a relação entre desigualdade socioconômica e a crise climática?

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Enxergar a Natureza como um sistema mecânico e não um organismo vivo trouxe muitos perigos, entre eles a desigualdade e a crise climática. A mudança climática é uma questão de desigualdade tanto nos impactos, como na causa. Enquanto países pobres poluem muito pouco e são os principais afetados pelo colapso ambiental, os países ricos e principais emissores de gases poluentes tendem a ser menos vulneráveis às transformações do clima.

O que veio antes da desigualdade e da crise climática?

Basicamente, a dominação da Natureza.

Para nós, seres humanos, a Natureza sempre foi vista como algo grande e vasto demais. Os seus mistérios sempre foram vistos com medo e desconfiança. Dessa maneira, a humanidade passou a se colocar em um lugar de dominação frente ao mundo natural. Isso é bastante compreensível, uma vez que a fome, a seca, os animais peçonhentos e outras variáveis podiam e ainda podem nos matar.

Entretanto, o domínio e a subjugação da Natureza nos levou a lugares perigosos. Se hoje estamos em situação de emergência climática, é porque nos afastamos demais da Natureza. À medida que esse organismo vivo foi visto e tratado como um sistema mecânico, os desequilíbrios passaram a se aprofundar. Assim, em séculos de controle do Meio Ambiente, perdemos a relação com ele e, portanto, não nos sentimos mais parte do mesmo.

No filme Avatar, por exemplo, é exibida a vida em um planeta no qual as criaturas nativas ainda cultivam um vínculo com o seu habitat natural. Nesse contexto, os seres são capazes de coexistir com o ambiente que os circunda, ao invés de destruí-lo. Ou seja, vivem uma espécie de simbiose com a Natureza. Nós, por outro lado, não desenvolvemos mais esse tipo de relação, portanto nos esquecemos da importância dessa interação na regulação da nossa saúde física e emocional.

Por exemplo, já parou para pensar o quanto afundar seu pé na terra, dar um mergulho no mar ou até mesmo beber água limpa impacta diretamente na sua saúde? No mundo moderno e urbanizado que vivemos, normalmente nossa satisfação e felicidade não estão atreladas a esses fatores. Elas estão, especialmente, atreladas ao consumo de bens. O resultado desse modo de enxergar a vida nos trouxe duas coisas: a crise climática e a desigualdade socioeconômica.

Breve resumo: desigualdade e crise climática

O que é o colapso climático?

A crise climática é o nome que se dá ao estado de emergência do clima no século XXI. Inúmeras pesquisas recentes afirmam que a temperatura global está subindo e isso traz consequências estrondosas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), criado em dezembro de 1988, conclui que essas mudanças derivam da ação humana. Ou seja, a nossa emissão de gases poluentes na atmosfera é um fator decisivo para as transformações no clima. Esses gases são chamados de Gases de Efeito Estufa (GEE) e derivam, sobretudo, da queima de combustíveis fósseis.

Entendemos, portanto, que os termos aquecimento global, crise climática e mudança do clima dizem respeito ao mesmo fenômeno.

Aqui já é possível fazer uma relação entre o estilo de vida moderno e as emissões. Se a maior fonte de poluição advém do setor produtivo, isso quer dizer que nosso sistema socioeconômico é baseado, principalmente, na transformação de matéria-prima em produtos comercializáveis. Como citado na introdução, esse modo de existência supõe que a satisfação humana reside no consumo de mercadorias. Assim, as consequências dessa premissa são o colapso ambiental, mas também a disparidade entre grupos sociais.

É necessário enfatizar que a crise climática é um dos efeitos do aquecimento global. Cada uma das quatro últimas décadas foi mais quente que todas as anteriores já registradas. Até agora, o aquecimento da temperatura sobre os continentes é de 1,59 °C em média, contra 0,88 °C sobre o oceano. A partir disso, o que se pode esperar, segundo o IPCC, são muitos eventos extremos. Isso quer dizer que irão acontecer mais enchentes, secas, tempestades, ciclones, tsunamis e invernos mais frios. As projeções do IPCC sobre os impactos desses fenômenos violentos na vida das pessoas são:

  • Insegurança alimentar (incluindo acesso aos alimentos e estabilidade nos preços)
  • Aumento da imigração
  • Ampliação da pobreza e choques econômicos
  • Aumento indireto de risco de conflitos violentos na forma de guerra civil e violência entre grupos Desaceleração do crescimento econômico

O que é a disparidade socioeconômica?

A desigualdade socioeconômica é caracterizada pela disparidade na distribuição de renda e no acesso a direitos básicos entre grupos sociais. Esse contraste deriva-se de fatores históricos, ausência de políticas públicas adequadas e, especialmente, da concentração de capital – segundo estudo realizado pelo laboratório do renomado economista francês Thomas Piketty, 1% dos mais ricos do mundo detém 35% de toda a renda global, enquanto os 50% mais pobre dividem 2% do todo. Sem dúvida, o estilo de vida moderno, combinado com a desconexão entre ser humano e Natureza, é uma das causas da desigualdade. Abaixo, dois infográficos que demonstram, a partir de dados do IBGE, a desigualdade econômica e a desigualdade social (quando se considera outros aspectos como gênero, raça e acesso a direitos).
Para medir a desigualdade socioeconômica pode-se utilizar diversos indicadores. Entre eles, por exemplo, a renda per capita, ou seja, a soma de todos os salários dividida pelo número de habitantes. Nesse caso, não considera-se outros fatores sociais como acesso à direitos. Assim, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é usado para ter uma visão mais ampla das disparidades. Ele serve como um indicador geral de qualidade de vida, pois contabiliza fatores como expectativa de vida ao nascer e o acesso à educação.

Outro tipo de desigualdade possível é entre países. Por exemplo, entre Serra Leoa e Estados Unidos da América existe um verdadeiro abismo. O país africano é o 209o com menor PIB per capita segundo a ONU e o 7o menor Índice de Desenvolvimento Humano. Por outro lado, os EUA estão entre os 20 primeiros países com a maior renda per capita e ocupam o 9o lugar de melhor IDH.

Ademais, existe também uma enorme diferença em relação a emissão de GEE entre os dois países. Por exemplo, segundo o climate watch, os EUA é o país que mais polui. Enquanto isso, um habitante de Serra Leoa produz 80 vezes menos GEE do que um estadunidense médio. No próximo tópico, mais informações sobre a conexão entre desigualdade socioeconômica e crise climática.

Desigualdade e crise climática: Como elas se relacionam?

A crise climática é uma questão relacionada à desigualdade, tanto nos impactos como em sua causa. Como foi apontado anteriormente, é perceptível que os países que mais poluem, são também os mais ricos. Dessa maneira, é possível inferir que a pegada de carbono está fortemente correlacionada com a renda e o consumo. Ou seja, os ricos tendem a poluir mais e os pobres menos. No que diz respeito aos impactos, o quadro se inverte. Segundo o índice ND-gain, que analisa a exposição e o potencial de impacto climático sobre ecossistemas, os países mais vulneráveis são também os que poluem menos.

O relatório “Extreme Carbon Inequality” desenvolvido pela Oxfam aponta precisamente essas desigualdades de emissões. Os dados mostram que os 10% mais ricos do mundo respondem por 49% das emissões, enquanto os 10% mais pobres emitem apenas 1% dos gases de efeito estufa (em CO2-equivalente). Ainda mais assustador é saber que as emissões per capita do 1% mais ricos são 175 vezes maiores que as emissões per capita dos 10% mais pobres.

Desigualdade nas emissões per capita

Além das diferenças de emissões entre nações é importante pontuar as diferenças per capita entre indivíduos de países diferentes. Atualmente, segundo dados do Banco Mundial, as emissões globais per capita estão em torno de 4,47 toneladas/pessoa/ano. O IPCC recomenda que até 2030 esse valor seja reduzido em torno da metade. Entretanto, mesmo atingindo o valor sugerido, ele ainda equivaleria a quase 10 vezes as emissões médias no grupo de países conhecidos como HIPC (países pobres altamente endividados). Dessa lista de lugares, a maioria se encontra na África e as emissões médias de CO2 per capita ficam em 0,27 tons/pessoa/ano.

Por outro lado, nos países que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o valor emitido por país pode chegar a 15,5 toneladas/pessoa/ano no Canadá. Ou seja, fazendo uma relação direta com o nível de emissões por habitante em Serra Leoa, pode-se dizer que um único canadense emite a mesma quantidade que 155 serra-leoneses.

“Como essa diferença pode ser tão gritante?”, você pode estar se perguntando. Para ilustrar de uma forma prática, vamos pensar no exemplo do carro e sua pegada de carbono. Digamos que, um canadense se locomova para o trabalho e faça viagens de final de semana com sua picape amarok e um serra-leonês faça seus percursos diários caminhando. Os dados do INMETRO indicam que esse carro emite até 245 gramas de CO₂ por quilômetro rodado. Supondo que o indivíduo percorra em média 20.000km por ano, já estamos falando de 4,9 toneladas a mais de CO₂ jogadas na atmosfera. Ou seja, 49 vezes mais emissões que um habitante de Serra Leoa, apenas considerando o transporte.

Contudo, se a emissão média per capita do Brasil se encontra apenas em 2 toneladas/pessoa/ano, isso não indica que dentro do nosso país não existam situações tão contrastantes como a mencionada acima. No próximo tópico, um exemplo prático das cadeias de desigualdades geradas no setor de transporte brasileiro.

Cadeia de Desigualdades: retroalimentação do colapso climático

Da mesma maneira que existe uma forte correlação entre o índice de desenvolvimento econômico de um país e suas emissões, também existe outra variável a ser pensada. Essa variável diz respeito a conexão entre má distribuição de renda (tanto nacionalmente quanto internacionalmente) e o acesso a tecnologias menos poluentes. Exemplo disso é a diferença do impacto ambiental do setor de transportes em países pobres e países ricos.

Esse relatório da ONU para o Meio Ambiente mostrou que entre 2015 e 2018, os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão exportaram cerca de 14 milhões de carros usados. Entre esses veículos, 80% foram enviados para países de baixa e média renda. Esses carros mais velhos são muito mais propensos a emitir gases poluentes e prejudicar a qualidade do ar. Ou seja, a necessidade de países ricos desovarem tecnologia velha faz com que países pobres sejam os principais importadores e, consequentemente, os mais atingidos, ambientalmente e socialmente.

O mesmo acontece em nível nacional no Brasil, por exemplo. Os ônibus usados por dez anos, são vendidos para cidades do interior do país. Esses dados demonstram uma prática cultural um tanto preocupante, que consiste em transferir os problemas ambientais para os mais pobres. Isso cria, portanto, uma cadeia de desigualdades que vai poluindo cada vez mais o Meio Ambiente.

Conclusão

Conforme foi apresentado, o distanciamento, a sujeição e a mecanização da Natureza são fatores que ocasionaram a atual crise climática e também a desigualdade socioeconômica. Partindo desse princípio, podemos pensar em resoluções pessoais e também em resoluções globais.

Entretanto, dado o tamanho e a complexidade do assunto, sabemos que são as políticas públicas e ações coletivas que realmente terão efeito no curso das mudanças climáticas. Entre os caminhos individuais, podemos começar repensando nossas prioridades e desejos. Será que realmente precisamos trocar de carro sempre? E se buscássemos prazer em atividades de mais contato com a Natureza? O que é realização pessoal para você? As nossas prioridades estão baseadas em aquisição de objetos ou tem espaço para outros tipos de desejos? Se fazer essas perguntas é, talvez, começar a construir uma existência menos invasiva e opressora com os ecossistemas que nos circundam.

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