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A fome e as mudanças climáticas são uma realidade.

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Para alguns até pode parecer, mas a emergência climática não é ficção científica de Hollywood. Por mais que existam filmes brilhantes como “Interestelar”, que abordam as consequências dessa questão na vida e, inclusive, na agricultura, é muito importante que essa pauta saia das telas e seja discutida no dia-a-dia. Ela é real e está acontecendo nesse instante. Aliás, se você já viu Interestelar e ficou curioso em relação ao que pode ter levado um engenheiro a se tornar um fazendeiro (além dos inúmeros vendavais, poeira constante e tempo seco) fique neste artigo. Até o final dele você vai saber mais sobre a relação entre a fome, comida industrializada, poluição atmosférica e as mudanças climáticas.

1- O modo de produzir e consumir alimentos gera fome, poluição e mudanças climáticas

1.1 Produção e distribuição

A demanda crescente por produtividade na agricultura torna a monocultura um sistema lucrativo, portanto, o mais empregado pelos produtores rurais. Segundo o Guia Alimentar Para a População Brasileira, documento criado pelo Ministério da Saúde que apresenta as primeiras diretrizes alimentares oficiais para a nossa população, estamos assistindo ao “desaparecimento de sistemas alimentares centrados na agricultura familiar, (…) no processamento mínimo dos alimentos realizado pelos próprios agricultores ou por indústrias locais e de uma rede de distribuição de grande capilaridade integrada por mercados, feiras e pequenos comerciantes.”

As monoculturas fornecem matérias-primas para a produção de alimentos ultraprocessados ou para rações usadas na criação intensiva de animais. Esse método depende de latifúndios, do uso intenso de mecanização, do alto consumo de água e de combustíveis, do emprego de fertilizantes químicos, sementes transgênicas, agrotóxicos e antibióticos.

Ainda segundo o Guia, infere-se que “o sistema de produção e distribuição dos alimentos pode promover justiça social e proteger o ambiente; ou, ao contrário, gerar desigualdades sociais e ameaças aos recursos naturais e à biodiversidade”.

Assim, a concentração da produção de grandes volumes de alimentos em várias partes do país promove a insegurança alimentar, pois dificulta a diversidade no prato, a distribuição e o acesso às mercadorias. Além disso, os impactos climáticos e na qualidade do ar são enormes, visto que o desmatamento e as queimadas acompanham a produção monocultora.

1.2 Consumo

A padronização dos hábitos alimentares é uma tendência mundial e acontece tanto nas cidades como em áreas rurais. Segundo esse estudo realizado em parceria com o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), o economista, professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Walter Belik, apenas 10 produtos representam 45% do prato brasileiro, são eles:

Arroz, feijão, pão francês, carne bovina, frango, banana, leite, refrigerante, cerveja e açúcar.

Isso é um problema, pois indica que a alimentação das pessoas está alinhada ao sistema alimentar baseado na monocultura, uso de agrotóxicos e práticas não sustentáveis. Ao invés de processos que valorizam a diversidade da natureza, as espécies nativas e a sazonalidade dos alimentos.

Para mais informação sobre a homogeneização dos modos alimentares e a influência da oferta massiva de certos alimentos na alimentação das pessoas, sugerimos esse episódio do podcast do “o joio e o trigo”: Prato Cheio | A comida ao redor (ojoioeotrigo.com.br).

A carne e os ultraprocessados

É justo enfatizar, contudo, que há um abismo enorme na composição de prato de famílias de baixa renda e famílias ricas. Entretanto, existe um elemento do prato que absorve a maior parte dos gastos em alimentação, independente da faixa de renda, que é a carne.
A explicação cultural para a preferência brasileira pelo consumo de carne é que ela carrega um significado de abastança e sociabilidade. Apesar disso, sua enorme demanda tem efeito imediato nos recursos para a criação de gado. Consequentemente, também nas emissões de gases que provocam as mudanças climáticas.

Ou seja, a ocupação central da carne na dieta dos brasileiros está relacionada com:

  1. Desmatamento para pastagem;
  2. Aumento da produção de grãos para alimentação animal;
  3. Aumento expressivo da quantidade de animais para consumo;
  4. Queimadas;
  5. Poluição de recursos hídricos;
  6. Poluição do ar.

Porém, além da carne, existem outros alimentos que, devido à sua procedência industrial, impactam a qualidade do ar. Um relatório publicado em janeiro de 2019 pela revista Lancet de um grupo de pesquisadores coordenado por Boyd Swinburn, da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, demonstra uma clara conexão entre mudanças climáticas, alimentos ultraprocessados e problemas alimentares.
O que diz o Guia Alimentar Para a População Brasileira

O Guia define os alimentos ultraprocessados como “uma categoria que corresponde a produtos cuja fabricação envolve diversas etapas e técnicas de processamento e vários ingredientes, muitos deles de uso exclusivamente industrial. Os exemplos incluem refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos de pacote e macarrão instantâneo”. A recomendação do Guia é para evitar seu consumo, devido às consequências negativas à saúde e também aos impactos desfavoráveis à cultura, à vida social e ao meio ambiente.

O impacto na cultura se dá através da publicidade massiva dos ultraprocessados. As propagandas sugerem uma falsa diversidade, atribuem status àqueles que os consomem e atraem especialmente o público jovem. Diante desse cenário, culturas alimentares genuínas passam a ser vistas como desinteressantes e são empurradas ao esquecimento.

Em relação ao desgaste da vida social, entende-se que os preparos tradicionais de alimentos possuem histórias, rituais e conexões afetivas. Isso acontece, principalmente, pois eles favorecem a união de pessoas em torno de uma comida que é muito mais do que um conjunto de nutrientes. Por outro lado, produtos industrializados são pobres nutricional e afetivamente, pois tornam a mesa de refeições e o compartilhamento da comida totalmente desnecessários.

Por fim, os danos ao meio ambiente decorrem da monocultura, tipo de cultivo que derivam os ultraprocessados, e da sequência de processos envolvidos com a manufatura, distribuição e comercialização desses produtos (longos percursos de transporte, portanto, grande gasto de energia e emissão de poluentes).

2- As queimadas na conta da crise climática e poluição do ar

As queimadas e os incêndios florestais são a principal fonte de GEE nas regiões do Brasil central e na Amazônia.

Como apresenta esse documento da WRI Brasil, o fogo que ocorre nas florestas da Amazônia é comprovadamente de origem humana, pois se trata de um bioma úmido, chuvoso e não adaptado ao fogo. Essas queimadas são promovidas na monocultura e na pecuária, com o intuito de abrirem grandes extensões de terra para cultivo e criação. Dado que esse fogo perde o controle e invade florestas adjacentes, as perdas são ainda maiores.

Por trás da poluição atmosférica resultante das queimadas existe a liberação de Material Particulado, um poluente muito perigoso para a saúde. Ao ser emitido na atmosfera, esse material, composto por diversas micro partículas, tem influência direta no regime hidrológico. Essa intereferência pode interromper as chuvas por determinado tempo, gerar secas e, possivelmente, mais queimadas.

Infelizmente, o material particulado pode se movimentar para outras regiões seguindo as correntes de ar da Amazônia. Ao se mover, ele leva a poluição para todo o país e causa desequilíbrios na qualidade do ar do Norte ao Sul.

O artigo da WRI menciona também sobre os alarmantes níveis de poluição do ar gerados pelas queimadas na região amazônica. Esses números podem chegar a ser o triplo da concentração de Material Particulado encontrado em São Paulo quando em estado de alerta.

3- A fome resultante da poluição e mudanças climáticas

Outro ponto que une a insegurança alimentar e a poluição atmosférica é o impacto dos poluentes na produtividade agrícola. Segundo esse estudo, altas concentrações de ozônio troposférico causaram a perda de 15% e 62% do cultivo de soja no Brasil. Essa situação pode prejudicar diretamente as populações que dependem dessa produção.

Além disso, quando comparados os custos associados à concentração de ozônio, identifica-se perdas de cerca de 3 bilhões de dólares na agricultura norte-americana. Isso demonstra os grandes impactos econômicos da negligência do poder público em relação à aplicação de medidas que amenizem os impactos das emissões.

Ademais, exatamente como os poluentes interferem na atividade agrícola, as mudanças do clima também. À medida que a temperatura média global aumenta, fenômenos climáticos incomuns tendem a acontecer muito mais, como as secas e as tempestades, o que compromete a produção global de alimentos. Ou seja, é impossível pensar em reduzir a fome no mundo se não existirem políticas públicas que contenham os avanços das mudanças climáticas.

4- Conclusão

Diante dos pontos apresentados, percebe-se a estreita relação entre a agricultura, a fome e as mudanças climáticas. Ademais, o ponto principal desse artigo é demonstrar como essas áreas estão interconectadas e carecem de órgãos reguladores. Não se trata apenas de um problema ambiental, mas também econômico e social. Portanto, para existir segurança alimentar no mundo é necessário investir em resoluções para o problema das emissões de GEE, assim como repensar o sistema alimentar vigente.

Para saber mais sobre como ajudar, conheça e apoie a iniciativa Médicos Pelo Ar Limpo, a primeira rede brasileira de profissionais e entidades da área médica que atua para promover a qualidade do ar e o combate à mudança do clima.

Além da nossa iniciativa, o Instituto de Saúde e Sustentabilidade, organização pioneira no assunto impactos da urbanização na saúde, tem uma vasta produção de conhecimento acerca do tema. Saiba mais sobre o trabalho produzido nesse link.

Outra maneira de ajudar é compartilhando nossos conteúdos em suas redes sociais. Converse com pessoas próximas, estude, questione e apoie coletivos que buscam construir um mundo mais saudável para todos.