O avanço das mudanças climáticas já está produzindo impactos diretos e mensuráveis na saúde pública global. Um novo relatório internacional mostrou que o aumento das temperaturas na Europa está associado ao crescimento das mortes relacionadas ao calor, à disseminação de doenças infecciosas e à ampliação de desigualdades em saúde.

O documento alerta que a crise climática deve ser tratada cada vez mais como uma emergência sanitária, e não apenas ambiental.

Calor já fez milhares vítimas

Segundo o relatório, quase todas as regiões da Europa registraram aumento das mortes associadas ao calor entre 2015 e 2024, em comparação com o período entre 1991 e 2000.

Somente em 2024, foram estimados mais de 62 mil óbitos relacionados às altas temperaturas, com impactos mais intensos no sul e no sudeste europeu.

Entre os grupos mais vulneráveis estão:

  • Pessoas idosas;
  • Bebês e crianças pequenas;
  • Trabalhadores(as) expostos(as) ao calor;
  • Populações socialmente vulneráveis.

O aumento das ondas de calor e das temperaturas médias amplia significativamente os riscos à saúde, especialmente em contextos urbanos e regiões com infraestrutura insuficiente para adaptação climática.

Mudanças climáticas favorecem disseminação de doenças infecciosas

Além dos impactos diretos do calor extremo, o relatório aponta que o aquecimento global está criando condições mais favoráveis para a transmissão de doenças infecciosas sensíveis à temperatura.

Os pesquisadores identificaram expansão das áreas propícias à circulação de doenças como:

  • Dengue;
  • Chikungunya;
  • Vírus do Nilo Ocidental.

Na última década, o risco médio de surtos de dengue na Europa quase quadruplicou em comparação com os anos 1980 e 1990, especialmente em regiões do sul e oeste europeu.

Esse cenário reforça um alerta já observado em diferentes partes do mundo: as mudanças climáticas alteram ecossistemas, ampliam a circulação de vetores e favorecem a propagação de doenças antes restritas a determinadas regiões.

Impactos também atingem trabalho, respiração e qualidade de vida

Os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde vão além das doenças infecciosas.

O relatório mostra que o aumento das temperaturas reduziu, em média, cerca de 24 horas anuais de atividade por trabalhador(a) na Europa entre 2000 e 2023, afetando principalmente setores com atividades ao ar livre, como:

  • Agricultura;
  • Construção civil;
  • Serviços urbanos.

Além disso, pesquisadores(as) destacam outros impactos relevantes:

  • Prolongamento da temporada de pólen, agravando casos de rinite e asma;
  • Maior exposição à fumaça de incêndios florestais;
  • Crescimento da insegurança alimentar em populações vulneráveis;
  • Ampliação das desigualdades sociais em saúde.

Os efeitos são desproporcionais e atingem de forma mais intensa populações de baixa renda e regiões com menor capacidade de adaptação.

Poluição do ar continua sendo uma das principais ameaças à saúde

O estudo também chama atenção para a persistência da poluição atmosférica como um dos principais fatores ambientais de adoecimento e mortalidade.

Embora tenha havido redução das emissões, a qualidade do ar segue com prejuízos.

A poluição atmosférica está associada ao aumento de doenças respiratórias, cardiovasculares e mortes prematuras, além de agravar os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde.

Crise climática e desigualdade caminham juntas

O relatório reforça que a crise climática não afeta todas as pessoas da mesma maneira.

Populações mais vulneráveis social e economicamente enfrentam maiores riscos devido a fatores como:

  • Moradias precárias;
  • Menor acesso a serviços de saúde;
  • Trabalho em ambientes expostos ao calor;
  • Infraestrutura urbana insuficiente;
  • Dificuldade de adaptação.

Esse cenário evidencia a necessidade de políticas públicas que integrem clima, saúde e justiça social.

A adaptação avança, mas ainda é insuficiente

O documento reconhece avanços importantes em diferentes países europeus, como:

  • Planos nacionais de adaptação climática;
  • Sistemas de alerta para ondas de calor;
  • Avaliações de risco climático na saúde.

No entanto, autores(as) alertam que as medidas ainda são insuficientes diante da velocidade do agravamento da crise climática.

Clima e saúde precisam estar no centro do debate público

Pesquisadores(as) alertam para a necessidade de ampliar o debate público sobre os impactos das mudanças climáticas na saúde.

Embora a produção científica sobre o tema tenha crescido significativamente, a relação entre clima e saúde ainda ocupa pouco espaço nas discussões políticas, econômicas e sociais.

Tratar a crise climática como uma emergência sanitária é essencial para mobilizar governos, empresas e sociedade civil em torno de soluções capazes de proteger vidas.

Mudanças climáticas são também uma crise de saúde pública

O relatório reforça um consenso cada vez mais evidente na comunidade científica: a crise climática já está afetando diretamente a saúde das populações.

Ondas de calor, poluição do ar, disseminação de doenças infecciosas e insegurança alimentar fazem parte de um cenário que exige respostas urgentes, integradas e baseadas em evidências.

Mais do que uma questão ambiental, enfrentar as mudanças climáticas significa proteger a saúde, reduzir desigualdades e garantir condições dignas de vida para as próximas gerações.

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