Um estudo publicado na revista científica Humanities and Social Sciences Communications revela que as populações indígenas já vivenciam os impactos das mudanças climáticas em seus territórios. O levantamento, intitulado Indigenous Peoples – knowledge systems and practices for climate survival, também destaca que os modos de vida e os conhecimentos tradicionais desses povos contribuem para a conservação da biodiversidade.
A pesquisa foi realizada em parceria com especialistas e comunidades indígenas da África, Ásia, Américas e Pacífico, além de pesquisadores da organização Conservation International. Ao todo, foram ouvidas 43 comunidades indígenas de diferentes regiões do mundo.
Um dos principais resultados do estudo mostra que 100% dos indígenas entrevistados relataram mudanças no clima e nas condições meteorológicas de seus territórios. Entre os impactos mais mencionados estão as secas e a ocorrência de eventos climáticos extremos.
Povos indígenas estão na linha de frente dos impactos climáticos
Segundo Renata Pinheiro, diretora do Programa de Povos Indígenas da Conservação Internacional no Brasil (CI-Brasil) e uma das responsáveis pelo estudo, as comunidades indígenas estão entre as primeiras a sentir os efeitos das mudanças climáticas.
“Eles estão na linha de frente das ameaças das mudanças climáticas e dos eventos extremos. Não importa onde eles estejam, eles estão sendo impactados. E são várias camadas de ameaças que eles vêm enfrentando: as ameaças antrópicas, como mineração ilegal; grandes projetos de mineração; extração ilegal de madeira; desmatamento; grandes queimadas e projetos de infraestrutura.”
Além das mudanças no clima, essas populações convivem com diferentes formas de pressão sobre seus territórios, que comprometem seus modos de vida e a conservação dos biomas onde vivem.
Conhecimento tradicional contribui para a conservação da biodiversidade
O estudo também evidencia a importância dos conhecimentos indígenas para a proteção da natureza.
De acordo com Renata Pinheiro, a relação dessas comunidades com o meio ambiente é baseada em uma visão que integra natureza, espiritualidade e coletividade, o que favorece práticas de conservação ao longo das gerações.
“É um olhar que coloca em pé de igualdade todos os seres vivos e não vivos, os invisíveis, os visíveis. Eles têm uma observação muito aprofundada da natureza, um olhar para o coletivo, para o bem-viver. Isso faz com que eles tenham relações muito mais respeitosas com a natureza.”
A pesquisa destaca que a preservação dos modos de vida indígenas gera benefícios que vão além dos próprios territórios, contribuindo para a manutenção da biodiversidade em diferentes regiões do planeta.
Mudanças climáticas alteram a rotina das comunidades
O estudo mostra que as mudanças no clima também têm afetado atividades cotidianas das populações indígenas.
Como exemplo, Renata Pinheiro cita o povo Yawanawá, no Acre. Segundo ela, conhecimentos tradicionais utilizados para observar os ciclos da natureza já não oferecem a mesma previsibilidade diante das alterações climáticas.
Essa mudança tem provocado impactos como insegurança alimentar e dificuldades de deslocamento para comunidades que dependem dos rios como principal meio de transporte.
Demarcação de territórios e participação nas decisões
Entre as medidas consideradas fundamentais para proteger os povos indígenas, o estudo destaca a importância da demarcação dos territórios.
Segundo Renata Pinheiro, o reconhecimento territorial é a base para garantir a continuidade dos modos de vida, das práticas culturais e da sobrevivência dessas comunidades.
A pesquisadora também defende que as populações indígenas participem dos espaços de decisão relacionados às políticas climáticas.
“Eles precisam ter sua autodeterminação respeitada, eles precisam estar sentados na mesa de negociação, definindo políticas nacionais e internacionais. A gente precisa conseguir enxergar os indígenas como detentores de um conhecimento que gera benefícios para a humanidade como um todo.”
O estudo reforça que reconhecer o conhecimento tradicional dos povos indígenas e garantir sua participação nas discussões sobre mudanças climáticas são medidas importantes para fortalecer ações de conservação da biodiversidade e de adaptação aos impactos do clima.



