Instituto Ar - Respira Amazônia - Sensores

A qualidade do ar na Amazônia Legal enfrenta um desafio estrutural e urgente. Apesar de concentrar mais da metade do território nacional, a região ainda conta com cobertura extremamente limitada de monitoramento da poluição atmosférica. 

Isso dificulta a resposta a crises ambientais, como no período das queimadas, que compromete a saúde de milhões de pessoas que vivem em áreas urbanas e rurais da floresta.

Essa é a principal conclusão do Policy Brief “Respira Amazônia: desafios e perspectivas do monitoramento da qualidade do ar na Amazônia Legal”, produzido pela Coalizão Respira Amazônia. A iniciativa, formada por universidades, organizações da sociedade civil e entidades governamentais, é a primeira rede multissetorial dedicada ao tema na região.

Instituto Ar - Respira Amazönia - Policy Brief

Monitoramento escasso e impactos crescentes

Dos mais de 250 equipamentos padrão de monitoramento do ar em funcionamento no Brasil, apenas dez estão instalados na Amazônia Legal: sete no Maranhão e três no Pará. Isso significa que uma das regiões mais afetadas pelas queimadas e pela poluição do ar é também uma das menos monitoradas.

A falta de dados compromete a atuação das autoridades públicas, especialmente durante a estação seca, quando a poluição proveniente de queimadas emissão de poluentes atinge níveis críticos. 

De acordo com o relatório World Air Quality Report, 13 das 38 cidades brasileiras com pior qualidade do ar em 2023 estão na Amazônia Legal. Os poluentes mais presentes são o material particulado fino (PM2.5 e PM10), o carbono negro e o monóxido de carbono, provenientes principalmente das queimadas e da expansão agropecuária.

Além dos danos ambientais, a exposição a esses poluentes representa um risco direto à saúde da população. O documento alerta que, em centros urbanos, comunidades ribeirinhas e indígenas, a exposição contínua a partículas finas (PM2.5) leva a um aumento de doenças respiratórias, como asma e bronquite, além de agravar condições cardiovasculares, como hipertensão e derrames.

O papel do monitoramento para políticas eficazes

A Coalizão Respira Amazônia defende que só é possível formular boas políticas públicas a partir de dados confiáveis. Para a médica Evangelina Araújo, diretora-executiva do Instituto Ar,  articulador da Coalizão Respira Amazônia, o monitoramento é o ponto de partida para qualquer estratégia de proteção à saúde:

“Só a partir do diagnóstico e do conhecimento do que existe é que é possível fazer políticas públicas e ações para a proteção da saúde da população”.

Evangelina lembra que a mobilização da Coalizão iniciou após uma pesquisa do Instituto Ar, em 2021, mostrar que sensores de baixo custo estavam sendo usados no Acre, mesmo sem nenhuma iniciativa oficial em curso. “A partir daí começamos um trabalho de escuta com os estados e de fortalecimento de rede”, relata.

Sensores de baixo custo como alternativa viável

Como resposta à ausência de dados, a Coalizão propõe o uso ampliado de sensores de baixo custo. Esses dispositivos, embora menos robustos que os equipamentos padrão, são práticos, acessíveis e funcionam com infraestrutura mínima, ideais para áreas remotas da Amazônia.

Mais de 180 sensores já foram instalados nos nove estados da Amazônia Legal. Com custo equivalente a 0,2% de um equipamento tradicional, esses sensores registram dados a cada 90 segundos e geram mais de mil medições por dia, o que permite a emissão de alertas em tempo real sobre a degradação da qualidade do ar.

Mas o sucesso da implantação dessa tecnologia depende da adaptação à realidade do território. A professora Silvia Mardegan, da Universidade Federal do Pará, explica por que as soluções precisam ser pensadas de forma contextualizada:

“O deslocamento entre municípios na região amazônica não é trivial. Muitas vezes, para chegarmos a uma cidade, precisamos viajar de barco por horas, às vezes dias. E percorrer de carro uma distância de 150, 200 km entre municípios aqui na região não é o mesmo que percorrer a mesma distância no estado de São Paulo, por exemplo.”

Além das barreiras geográficas, há ainda limitações de infraestrutura:

“Muitas localidades têm sérios problemas de acesso à energia elétrica ou nem possuem esse serviço universalizado. E, mesmo quando presente, são muito comuns interrupções e variações de tensão, o que favorece a ocorrência de danos nos equipamentos”, completa Silvia.

Ela também destaca a necessidade de articulação entre sensores acessíveis e estações de referência:

“Certamente é uma solução viável e necessária. Os sensores de baixo custo são essenciais para reconhecermos o problema e os padrões relacionados à qualidade do ar na Amazônia. Mas também é de grande importância e urgência que tenhamos a instalação estratégica de estações de referência na região, incluindo não apenas nas capitais, haja vista a extensão do território.”

Experiências locais fortalecem a rede

Iniciativas já em curso mostram que o uso de tecnologias acessíveis pode transformar a realidade do monitoramento ambiental na região. No Acre, entre 2019 e 2021, uma rede com sensores foi instalada em todos os 22 municípios do estado, com apoio do Ministério Público e da Universidade Federal do Acre. A experiência, que integrou sociedade civil, pesquisadores e promotores, tornou-se referência e inspirou a criação da própria Coalizão Respira Amazônia.

Outra iniciativa destacada no Policy Brief é a Plataforma SELVA (Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental), criada por pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas. Lançada em 2021, a plataforma une dados de sensores de baixo custo com imagens de satélite e modelos atmosféricos, funcionando como ferramenta de vigilância ambiental e educação.

Entre 2021 e 2024, uma parceria entre o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e o Woodwell Climate Research Center instalou 60 sensores em áreas de conservação, territórios indígenas e fazendas.

A análise preliminar mostrou que, mesmo em áreas protegidas, os níveis de poluição por PM2.5 durante a estação seca excedem os limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério do Meio Ambiente, reforçando a urgência de uma resposta coordenada.

Coalizão Respira Amazônia: um esforço coletivo

Lançada em 2023 e articulada pelo Instituto Ar, a Coalizão Respira Amazônia reúne 22 instituições com o objetivo de ampliar o monitoramento da qualidade do ar na Amazônia Legal, especialmente em áreas de difícil acesso. A proposta é construir políticas ambientais eficazes e proteger a saúde das populações mais vulneráveis.

“O maior potencial da Coalizão é trazer a realidade do território. Quem vive ali conhece o problema e pode legitimar o que está sendo construído. Isso faz toda a diferença”, afirma Evangelina Araújo.

Para acessar o Policy Brief completo, visite: respiraamazonia.org.br

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