Prevenir incêndios florestais exige conhecer o território, preparar quem vive nele e agir antes que o fogo saia do controle. Essa é a proposta do Marajó sem Fumaça, projeto realizado pelo Instituto Ar com apoio da umgrauemeio, no município de Ponta de Pedras, no Arquipélago do Marajó (PA).
Ao longo do projeto, a atuação combinou formação comunitária, educação ambiental e tecnologia para apoiar a prevenção e a resposta aos incêndios. Entre as ações desenvolvidas estão o apoio à formação da brigada comunitária Guardiões das Chamas e a instalação de um sistema de monitoramento por câmera com Inteligência Artificial.
Como resultado desse trabalho, 15 brigadistas foram certificados após 32 horas de formação, realizadas em dezembro de 2025, e participaram de uma reciclagem com fogo real, em julho de 2026. Na frente de educação ambiental, cerca de 2 mil exemplares da revista “Fogo: Amigo ou Perigo?” foram levados às escolas, acompanhados de um plano de aula.
“Precisamos educar e esclarecer sobre o uso do fogo. Punição não resolve; a mudança passa por educação ambiental, manejo integrado do fogo e consciência no município”, afirma Cosmerina D’Ávila, brigadista dos Guardiões das Chamas.
Agora, o projeto entra em uma nova etapa, dedicada a compartilhar os resultados do trabalho realizado, pensar em escala e replicabilidade, garantir que a brigada esteja operacional durante os meses de El Niño e refletir sobre formas de aprimorar a PNMIF a partir da experiência dos territórios.
Uma experiência construída no território
O Marajó sem Fumaça foi desenvolvido em Ponta de Pedras, onde o deslocamento entre comunidades depende de trajetos fluviais e não há grupamento do Corpo de Bombeiros. Na comunidade rural de Curral Panema, o projeto apoiou a formação da brigada Guardiões das Chamas, composta por pescadores, agricultores familiares e agroextrativistas.
A atuação da brigada foi apoiada pelo Sistema Pantera, desenvolvido pela umgrauemeio. A tecnologia utiliza uma câmera com Inteligência Artificial capaz de detectar focos de fumaça em tempo real, 24 horas por dia, com cobertura de até 20 quilômetros.
Os brigadistas foram capacitados para interpretar os alertas enviados pelo sistema e atuar no território. Como explicou Júlia Castro, coordenadora do projeto pela umgrauemeio, durante o encontro “Política, Ciência e Territórios no Manejo Integrado do Fogo no Brasil”:
“A câmera com IA ajuda a enxergar a fumaça mais cedo, mas o alerta só funciona porque existe uma equipe comunitária capacitada e pronta para atuar no terreno.”
Manejo integrado do fogo em debate
A experiência do Marajó sem Fumaça foi apresentada no encontro “Política, Ciência e Territórios no Manejo Integrado do Fogo no Brasil”, realizado em 9 de setembro, na sede do Ibama, em Brasília.
Promovido pelo Instituto Ar, pela umgrauemeio e pelo Projeto Marajó sem Fumaça, em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), IBAMA/Prevfogo e Integra Fogo, com apoio do Clean Air Fund, o encontro reuniu especialistas, cientistas e gestores para discutir a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), com atenção também aos impactos da fumaça sobre a saúde.
Durante o encontro, Patrícia Ferrini, coordenadora do projeto Marajó sem Fumaça, destacou a importância de uma atuação preventiva e conectada às características de cada território:
“Instituída pela Lei nº 14.944/2024, a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo propõe agir antes que o incêndio aconteça, com prevenção, monitoramento e resposta adaptados a cada território. No Marajó, isso passa por valorizar o conhecimento das comunidades e fortalecer os brigadistas locais.”
A relação entre incêndios, fumaça e saúde também esteve presente na discussão. Para Evangelina de Araújo, diretora-executiva do Instituto Ar, os efeitos permanecem mesmo depois que as chamas são controladas.
“A fumaça não termina quando o foco de incêndio é controlado. O carbono negro e as partículas finas permanecem no ar, alcançam áreas urbanas distantes e causam danos cardiovasculares e respiratórios graves.”
O workshop apresentou os principais aprendizados obtidos durante a realização do projeto e a experiência de integrar conhecimento comunitário, educação ambiental e tecnologia na prevenção e resposta aos incêndios.
Entre os principais aprendizados apresentados, quatro se destacam.
O primeiro é a importância de valorizar os saberes locais e adaptar-se a eles. O conhecimento sobre o fogo já existia nas comunidades, onde ele é ferramenta de trabalho para manejar roças e limpar terreno. O que mudou foi a floresta, cada vez menos resiliente. “Nosso papel foi acrescentar margem de segurança a um saber que já existia, não substituí-lo”, resumiu Patrícia Ferrini. Por isso o trabalho começou por um diagnóstico participativo, antes de qualquer plano de formação, e a formação foi desenhada a partir do que as comunidades já sabiam e do que identificaram como necessidade.
O segundo é que a tecnologia precisa se adequar à brigada, e não o contrário. Ao longo do projeto, o sistema de detecção foi ajustado e corrigido a partir do uso em campo, para que os alertas chegassem de forma compreensível e acionável a quem vive no território.
O terceiro é a velocidade de resposta: na estação seca, o fogo avança mais rápido do que a resposta externa consegue chegar — no Marajó, as brigadas estaduais chegam pelo rio. Por isso detecção e resposta precisam acontecer na mesma escala de tempo do fogo, com quem responde já vivendo no território.
O quarto é a importância da educação ambiental: prevenir exige que crianças, professores e famílias entendam quando o fogo é ferramenta e quando é risco, e a revista educativa levada às escolas do município foi parte central dessa frente.
Recomendações e próximos passos
As recomendações apresentadas partem de uma distinção: o que pode ser levado a outros territórios e o que precisa existir em cada um deles.
Viajam o método — diagnóstico participativo antes do plano, com a formação desenhada a partir dele —, a lógica de detecção e resposta na escala de tempo do fogo, o material educativo, disponível de forma aberta, e a tecnologia de detecção, já comprovada em outros biomas.
Para a política nacional, o projeto aponta três prioridades: a criação de fundos permanentes de financiamento para brigadas voluntárias, a regulamentação da profissão de brigadista e o investimento na capacitação de instrutores como parte da PNMIF — condições para que a Estratégia Nacional do Voluntariado se sustente nos territórios. Essas recomendações estão detalhadas no policy brief “Manejo Integrado do Fogo no Brasil”, publicado pelo Instituto Ar.
A apresentação dos aprendizados permite reunir o que foi aprendido durante a execução do Marajó sem Fumaça e registrar caminhos para a continuidade das ações de prevenção, monitoramento e resposta aos incêndios.
Para o Instituto Ar, compartilhar essa experiência também é uma forma de ampliar a discussão sobre manejo integrado do fogo, qualidade do ar e saúde, aproximando conhecimento técnico, tecnologia e a realidade de quem vive nos territórios.
Quer conhecer mais sobre o Marajó sem Fumaça? Acesse a página do projeto e conheça suas ações: marajosemfumaca.com.br


















