Com pico de 236 participantes, evento marcou o lançamento oficial do Guia de Comunicação de Qualidade (do Ar) e reuniu especialistas para discutir como construir narrativas mais eficazes e acessíveis.
No último dia 24 de março, o Instituto Ar realizou o webinário “Comunicação de Qualidade (do Ar): como construir narrativas eficazes sobre clima e poluição?”. O evento online foi um marco para a comunicação socioambiental no Brasil, reunindo um público diverso formado por jornalistas, estudantes, coletivos independentes e equipes de comunicação de ONGs e empresas.
O engajamento do público demonstrou a urgência do tema: o webinário contou com a participação de 140 convidados simultâneos e atingiu um pico de 236 participantes ao longo da transmissão.
A moderação foi conduzida por Maria Victória Beligni, analista sênior de comunicação do Instituto Ar, que abriu o evento destacando o desafio coletivo que motivou o encontro. “Comunicar sobre qualidade do ar e mudanças climáticas é genuinamente um tema difícil. São temas técnicos, complexos, que exigem muitas vezes uma base conceitual para que a mensagem chegue com precisão e com impacto para o público”, ressaltou.
Durante a abertura, foi lançado oficialmente o Guia de Comunicação de Qualidade (do Ar), uma ferramenta prática e gratuita desenvolvida para apoiar profissionais na cobertura e divulgação desses temas, evitando a comum — e prejudicial — separação entre as agendas de clima e poluição.
Retrospectiva: Os melhores momentos e as principais falas
O evento foi estruturado para aprofundar diferentes dimensões da comunicação sobre qualidade do ar, contando com um painel de especialistas de peso. Confira os destaques de cada apresentação:
1. O abismo entre os padrões nacionais e a saúde pública
Evangelina Araújo, Diretora Executiva do Instituto Ar, abriu as apresentações técnicas desmistificando os parâmetros de qualidade do ar. Ela alertou para a defasagem dos padrões adotados no Brasil em relação às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS).
“O padrão de qualidade do ar é uma ferramenta de gestão. Não quer dizer que a ferramenta de gestão escolhida pelo país seja segura para a saúde. O Brasil aceita que os níveis de poluente no ar sejam o dobro do que é recomendado pela saúde.” — Evangelina Araújo
2. O apagão de dados e o desafio do monitoramento
Em seguida, Helen Sousa, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), abordou as graves lacunas no monitoramento da qualidade do ar no país, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Ela enfatizou que a falta de dados compromete não apenas a gestão pública, mas também o direito da população à informação.
“Sem o dado de monitoramento, a gente não sabe exatamente o que está respirando, não consegue traçar quais são os planos para chegar nos objetivos. A gente acaba ficando cego em relação a isso. Não é só monitorar — é monitorar, disponibilizar e trabalhar e comunicar essas informações.” — Helen Sousa
3. A poluição como uma questão de cidadania
O Prof. Dr. Paulo Saldiva (FMUSP) trouxe uma perspectiva histórica e de saúde pública, explicando como o índice de qualidade do ar deve ser usado como uma ferramenta de comunicação direta com a população. Com analogias precisas, ele ilustrou a gravidade da exposição diária à poluição nos grandes centros urbanos.
“Todos nós temos um monitor pessoal — só que a gente não olha dentro. Aquela fuligem que suja as cortinas, o teto dos carros — ela entra no pulmão. A questão da poluição, além de uma questão de saúde e de regulação ambiental, é uma política de qualificação da cidadania.” — Prof. Dr. Paulo Saldiva
4. O impacto das queimadas na Amazônia
Trazendo o olhar para um dos biomas mais cruciais do planeta, Ane Alencar, Diretora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), apresentou dados alarmantes sobre como as queimadas afetam a qualidade do ar respirado por comunidades inteiras durante meses a fio.
“Em 2024, tivemos uma área com mais de 60 dias — dois a quatro meses — com pessoas respirando um ar impróprio para a saúde. Não é como respirar quando alguém está fumando do seu lado, que você pode sair. Ali as pessoas estão respirando um ar de péssima qualidade.” — Ane Alencar
5. Educomunicação: Informação aliada a valores
Fechando o bloco de especialistas, a Profª. Dra. Thaís Brianezi (ECA-USP) provocou uma reflexão profunda sobre as armadilhas do “déficit de informação”. Ela defendeu que apenas despejar dados técnicos não é suficiente para engajar a sociedade; é preciso conectar a informação aos valores do público.
“A informação não é suficiente — mas dizer que não é suficiente não significa dizer que não é fundamental. É o dado junto com o valor que faz a diferença em narrativas eficazes. Se a gente trabalhar só a denúncia e não trabalhar o anúncio, como é que esse público vai se sentir potente e mobilizado para agir?” — Profª. Dra. Thaís Brianezi
Acesse o Guia e assista à gravação
O webinário foi encerrado com uma rica sessão de perguntas e respostas, evidenciando o alto nível de engajamento dos participantes. O sucesso do evento reforça a missão do Instituto Ar de ser a voz da saúde no debate climático e de instrumentalizar a sociedade para exigir um clima equilibrado e ar mais limpo.
Se você perdeu o evento ou deseja rever as apresentações, a gravação completa já está disponível.
Além disso, convidamos todos a conhecerem e utilizarem o Guia de Comunicação de Qualidade (do Ar), disponível gratuitamente em dois formatos:
- 🌐 Website interativo: guias.institutoar.org.br
- 📄 PDF para download: Acesse aqui
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O webinário e o Guia são realizações do Instituto Ar, com apoio do Instituto Itaúsa.



