O Brasil começou o ano enfrentando mais uma onda de calor intenso, com temperaturas cerca de 5 °C acima da média histórica, levando o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) a emitir alerta vermelho, o nível máximo de risco.
Os impactos já foram visíveis. A cidade de São Paulo registrou 36,2 °C, mais um recorde para a história, e o estado do Rio de Janeiro contabilizou mais de 2 mil atendimentos de saúde relacionados ao calor em poucos dias. Esses números reforçam que as ondas de calor não são apenas eventos climáticos extremos, mas um grave problema de saúde pública.
Ondas de calor e o estresse térmico no corpo humano
Quando somos expostos a temperaturas muito elevadas, o organismo entra em estresse térmico. Isso significa que o corpo precisa ativar uma série de mecanismos para manter a temperatura interna em níveis compatíveis com a vida.
A primeira resposta ao calor é a tentativa de dissipar energia térmica. Isso ocorre principalmente por meio de:
- Sudorese (produção de suor)
- Dilatação dos vasos sanguíneos periféricos, que facilita a liberação de calor para o ambiente
Segundo especialistas, esse esforço de adaptação exige mais do sistema cardiovascular. A frequência cardíaca aumenta, e alterações na pressão arterial podem ocorrer como mecanismos compensatórios para manter o equilíbrio térmico.
Quando a adaptação deixa de ser suficiente
Em situações de calor extremo, especialmente quando combinadas com alta umidade, comum em várias regiões do Brasil. O suor pode deixar de ser eficaz como mecanismo de resfriamento. Nesses casos, o corpo começa a superaquecer, o que aumenta significativamente os riscos à saúde.
Os primeiros sinais costumam incluir:
- Sede intensa
- Fadiga
- Câimbras musculares, causadas pela perda de eletrólitos no suor
Com a progressão do estresse térmico, podem surgir sintomas mais graves, como:
- Tontura
- Náuseas e vômitos
- Confusão mental
Se o calor não for aliviado, o quadro pode evoluir para insolação ou choque térmico, condições potencialmente fatais, associadas a convulsões, falência de múltiplos órgãos e risco de óbito.
Calor extremo e mortalidade: o que dizem os dados científicos
As consequências do calor excessivo já são observadas em escala global. Um relatório publicado na revista científica The Lancet aponta que, nos últimos 20 anos, a mortalidade relacionada ao calor aumentou 53,7% entre pessoas com mais de 65 anos.
Na Europa, por exemplo, uma análise publicada na Nature Medicine estimou que 61,6 mil mortes foram atribuídas ao calor apenas no verão de 2022, entre os meses de maio e setembro. Esses dados evidenciam que ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes são um dos efeitos mais letais das mudanças climáticas.
Quem sofre mais com as ondas de calor?
Embora parte da população brasileira esteja mais habituada a temperaturas elevadas, eventos extremos representam riscos significativos, especialmente para grupos mais vulneráveis, como:
- Pessoas idosas, sobretudo aquelas com saúde fragilizada
- Crianças pequenas, cujo organismo ainda está em desenvolvimento
- Pessoas com doenças crônicas ou comorbidades
- Trabalhadores expostos ao sol, como vendedores ambulantes e trabalhadores rurais
- Pessoas que utilizam medicamentos que aumentam a perda de líquidos, como diuréticos
Nesses grupos, o risco de desidratação, complicações cardiovasculares e agravamento de doenças pré-existentes é ainda maior.
Como proteger o corpo durante ondas de calor intenso
Mantenha os ambientes mais frescos
Diante de cenários de calor extremo, a prevenção é fundamental. A hidratação adequada é a principal estratégia de proteção, mas outros cuidados também são essenciais para reduzir os riscos à saúde.
- Sempre que possível, mantenha a temperatura interna abaixo de 32 °C durante o dia e 24 °C à noite
- Aproveite o ar noturno para ventilar a casa
- Reduza fontes internas de calor, como aparelhos elétricos, e mantenha cortinas fechadas durante o dia
Evite a exposição ao calor
- Evite sair entre 12h e 16h, quando o calor é mais intenso
- Reduza atividades físicas extenuantes em horários quentes
- Procure locais climatizados, como prédios públicos, se sua casa não estiver fresca
Cuide da hidratação do corpo
- Beba água regularmente, mesmo sem sentir sede
- Evite bebidas alcoólicas e com cafeína
- Tome banhos frios e use compressas frias para auxiliar no resfriamento
- Hidrate a pele, as narinas e os olhos, que também sofrem com o calor excessivo
Fique atento a sinais de alerta
- Procure ajuda se sentir tontura, fraqueza, dor de cabeça ou sede intensa
- Em casos graves, como confusão mental, convulsões ou perda de consciência, busque atendimento médico imediato
- Leve a pessoa para um local fresco e inicie o resfriamento externo
Calor extremo exige respostas também no ambiente de trabalho
Os dados e evidências apresentados ao longo do artigo mostram que as estratégias individuais de proteção, embora essenciais, não são suficientes diante de ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes. Em muitos casos, especialmente no ambiente de trabalho, a exposição ao calor é contínua e estrutural, exigindo ações organizadas, prevenção e planejamento.
Diante desse cenário, o Instituto Ar desenvolveu o Guia prático para empresas – Calor e Saúde do Trabalhador, um material voltado à prevenção de riscos, proteção da saúde e redução de impactos do calor extremo sobre trabalhadores e organizações.
O lançamento do Guia acontece em um evento presencial no dia 28 de fevereiro, das 8h às 12h, no Anfiteatro da FMUSP (São Paulo). O encontro reunirá especialistas para discutir os desafios do calor no mundo do trabalho e apresentar orientações práticas para empresas, especialmente dos setores mais expostos, como transporte, construção, logística, indústria e serviços urbanos.
O Guia foi desenvolvido pelo Instituto Ar em parceria com a Associação Paulista de Medicina do Trabalho e o Médicos pelo Clima, com apoio do Instituto Itaúsa.
Inscrições abertas na primeira semana de fevereiro.