As ilhas de calor urbanas são áreas dentro das cidades que registram temperaturas mais elevadas do que a média do entorno. Esse fenômeno ocorre, principalmente, nas regiões centrais, mas pode se manifestar em diferentes pontos do perímetro urbano, dependendo das características locais de ocupação e uso do solo.
Segundo Marcel Fantin, professor e pesquisador do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP), as ilhas de calor estão diretamente relacionadas à forma como as cidades são construídas e organizadas.
Como se formam as ilhas de calor urbanas?
A formação das ilhas de calor resulta da combinação de diversos fatores urbanos. Entre os principais estão:
- Baixa presença de árvores e áreas verdes, que reduz o sombreamento e o resfriamento natural do ambiente;
- Alta impermeabilização do solo, com predominância de asfalto e concreto;
- Uso massivo de materiais que absorvem mais radiação solar, comuns na infraestrutura urbana.
Além disso, Fantin destaca que o adensamento urbano e a presença dos chamados “cânions urbanos” — ruas estreitas cercadas por prédios altos — reduzem a ventilação e favorecem o aprisionamento do calor. O calor gerado por atividades humanas, como o tráfego de veículos, o uso de ar-condicionado e processos industriais, também contribui para intensificar o fenômeno.
Quando surgiram os primeiros estudos sobre ilhas de calor?
De acordo com Francisco Jablinski Castelhano, professor e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Crise Climática da UFRN, os primeiros estudos sobre ilhas de calor datam de 1818, realizados pelo meteorologista Luke Howard, em Londres.
Na época, Howard observou que um termômetro instalado no centro da cidade registrava temperaturas, em média, 1 °C mais altas do que aquelas medidas em áreas rurais. Ele atribuiu essa diferença à maior concentração de fontes de calor de origem humana, especialmente os aquecedores a carvão utilizados nas residências.
Desde então, o fenômeno passou a ser amplamente estudado e, segundo especialistas, tem se tornado mais intenso nos últimos anos.
Qual a relação entre ilhas de calor e cidades mais quentes?
Uma cidade pode ser naturalmente quente por estar localizada em regiões de clima árido ou tropical. No entanto, as ilhas de calor funcionam como um aquecimento adicional, provocado pela urbanização.
Em grandes metrópoles como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, esse efeito é mais intenso devido à grande concentração de construções, à baixa cobertura vegetal e ao elevado tráfego. Como resultado, bairros densamente urbanizados podem registrar temperaturas significativamente mais altas do que áreas próximas mais arborizadas.
Esse aquecimento é especialmente perceptível durante a noite, quando o concreto e o asfalto liberam lentamente o calor acumulado ao longo do dia.
As ilhas de calor são mais intensas em cidades grandes?
Há consenso entre especialistas de que as ilhas de calor são mais frequentes em cidades com alta densidade populacional e grande concentração de construções.
Segundo Everaldo de Souza, professor titular do Instituto de Geociências da UFPA, o fenômeno está associado à presença de extensas áreas construídas de forma contínua, à escassez de vegetação e à menor ventilação em determinados pontos urbanos. Além disso, a escala territorial das metrópoles faz com que o efeito das ilhas de calor se propague por áreas mais amplas e persista por mais tempo, sobretudo durante as noites quentes.
No entanto, o problema não se restringe às grandes cidades. Estudos mostram que municípios de pequeno e médio porte também podem apresentar diferenças significativas de temperatura. Em Presidente Prudente (SP), por exemplo, a variação térmica entre diferentes áreas urbanas pode chegar a quase 3 °C, especialmente em regiões com habitações populares, lotes pequenos e baixa cobertura vegetal.
Quais são os impactos das ilhas de calor na saúde da população?
O aumento das temperaturas nas áreas urbanas provoca impactos diretos na saúde. Entre os principais efeitos estão o maior risco de desidratação, exaustão térmica e insolação.
Além disso, o calor excessivo pode agravar doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e condições relacionadas à saúde mental. Também afeta o sono, a produtividade e o bem-estar geral da população.
Os riscos são maiores para idosos, crianças, gestantes, pessoas com doenças crônicas e indivíduos em situação de maior vulnerabilidade social. Segundo Francisco Castelhano, pessoas de baixa renda tendem a ter menor capacidade de reação ao problema, seja pela dificuldade de adquirir equipamentos de refrigeração, como ar-condicionado, seja pela maior exposição ao calor em meios de transporte coletivo sem resfriamento adequado.
As ilhas de calor tendem a se tornar mais frequentes e intensas?
Especialistas afirmam que sim. O aquecimento global, associado às mudanças climáticas, eleva a temperatura de base e intensifica as ondas de calor. Ao mesmo tempo, a urbanização amplia áreas impermeáveis e reduz a ventilação e a vegetação.
Com isso, episódios de calor extremo nas cidades tendem a se tornar mais frequentes, levando os municípios a registrar patamares de temperatura cada vez mais perigosos para a saúde da população.
Everaldo de Souza ressalta ainda que cidades mais quentes demandam mais energia para refrigeração, o que aumenta o consumo energético, as emissões de gases de efeito estufa e o calor residual local, intensificando o ciclo das ilhas de calor urbanas.
Quais medidas podem ajudar a reduzir os efeitos das ilhas de calor?
Entre as principais estratégias apontadas pelos especialistas estão:
- Ampliação da arborização urbana, com parques, praças e corredores verdes;
- Melhoria do transporte público, reduzindo o uso de veículos individuais e o calor gerado por atividades humanas;
- Adoção de pavimentos permeáveis e de materiais mais claros e refletivos, como telhados frios.
No Brasil, alguns municípios já avançaram na criação de legislações específicas. Em São Paulo, por exemplo, leis municipais incentivam a adoção de telhados verdes, que podem contribuir para a redução das temperaturas em áreas densamente construídas.
Marcel Fantin destaca, no entanto, que a eficácia dessas medidas depende de escala, manutenção e continuidade, sendo políticas de médio e longo prazo. Como exemplo positivo, ele cita Curitiba, que se destaca pelo histórico de priorização das áreas verdes e de políticas urbanas voltadas à qualificação ambiental.
Cidades mais frescas são cidades mais saudáveis
Para o Instituto Ar, reduzir os efeitos das ilhas de calor urbanas é fundamental para a promoção da saúde pública, da qualidade de vida e da justiça ambiental. Compreender como essas áreas se formam e de que maneira impactam o corpo humano é um passo essencial para o desenvolvimento de cidades mais resilientes diante das mudanças climáticas.
Diminuir o calor nas cidades é também uma forma de proteger vidas.