A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP30), recém-encerrada, marcou um ponto de virada fundamental para a saúde global. Pela primeira vez, um dia inteiro foi dedicado a este tema vital, consolidando a compreensão de que a saúde humana não é apenas afetada pela crise climática, mas deve ser parte intrínseca da solução. Esse protagonismo reflete um esforço coletivo da sociedade civil, com organizações como o Instituto Ar e o Movimento Médicos pelo Clima, atuando incansavelmente para colocar a vida e o bem-estar no centro da agenda climática.
O Dia da Saúde na COP30
A decisão de ter um Dia da Saúde na COP30 não foi meramente simbólica. Como afirma Evangelina Araújo, médica patologista e fundadora do Instituto Ar, representa um “legado fundamental”. Ela ressalta a urgência de incorporar a saúde humana como eixo estruturante das negociações, visto que os impactos das mudanças climáticas já são uma realidade palpável em nossos consultórios, postos de saúde e prontos-socorros.
Nesse cenário, o Movimento Médicos pelo Clima, idealizado pelo Instituto Ar, emergiu como um pioneiro no Brasil. Sua missão de capacitar a classe médica e levar o conhecimento sobre os impactos do clima na saúde é essencial. “Mas não basta conhecer os impactos”, enfatiza Evangelina, “é necessário incorporar essa realidade à prática clínica com diretrizes e protocolos de atendimento específicos para o paciente cuja saúde foi afetada em função de eventos climáticos”. Essa visão é a base para a construção de sistemas de saúde mais resilientes e preparados para o futuro.
Belém e o Futuro da Saúde Climática
A COP30 foi palco de anúncios e iniciativas transformadoras, com a sociedade civil desempenhando um papel decisivo na sua construção:
1.Lançamento do Plano de Ação de Saúde de Belém: Coordenado pelo Ministério da Saúde, este documento contou com o apoio e a expertise de diversas instituições, incluindo o Movimento Médicos pelo Clima. O Plano de Belém não é apenas um guia, mas um compromisso com “diretrizes e medidas práticas para que os países adaptem seus sistemas de saúde aos efeitos da crise climática”, segundo Evangelina Araújo. A contribuição do Movimento Médicos pelo Clima foi importante para garantir que o plano incluísse propostas essenciais como:
- Ampla proteção para profissionais de linha de frente, com equipamentos adequados e atenção psicossocial.
- Criação de protocolos claros para atender populações vulnerabilizadas durante eventos extremos.
- Garantia de financiamento para ações preventivas.
- Integração do cuidado climático à atenção primária.
2. Criação da Rede Saúde e Clima Brasil: Em um movimento estratégico para fortalecer a colaboração e a incidência política, a Rede Saúde e Clima Brasil foi lançada durante a COP30. Esta articulação inovadora reúne 16 fundadores,como Instituto Ar, Médicos pelo Clima, Fiocruz, Projeto Saúde e Alegria, Rede Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), Projeto Hospitais Saudáveis, SAMA Health in Harmony, Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), Uma Concertação pela Amazônia, Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), Catalyst Now, ASEc+, Associação Beradeiro, Instituto Mamirauá, DNDi (Drugs for Neglected Diseases initiative) e Instituto Árvores Vivas. O Médicos Sem Fronteiras Brasil (MSF-Brasil) participa como membro-observador. A Rede Saúde e Clima Brasil é uma comunidade de prática colaborativa, plural e nacional, que atua de forma coesa e politicamente incidente. Conecta conhecimento científico, saberes transdisciplinares, intergeracionais e participativos para fortalecer a ação coletiva de prevenção e enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas na saúde. A Rede trabalha para colocar a saúde no centro das decisões e prioridades políticas sobre o clima, afirmando que a justiça climática só existe com a justiça em saúde integral e o direito ao bem viver.
3. Lançamento do Guia de Mudanças Climáticas e Saúde: a publicação reúne orientações práticas para prevenção, cuidado e vigilância em situações relacionadas a eventos climáticos extremos, como calor intenso, frio, poluição do ar, inundações e secas e está disponível na plataforma SUS. O lançamento ocorreu no estande do Instituto Evandro Chagas (IEC), em Belém (PA), durante a COP 30, no dia 12 de novembro.
4. Fundo de Clima e Saúde: No dia 13 de novembro, data dedicada ao tema saúde, foi anunciado um aporte de US$ 300 milhões pela Coalizão de Financiadores de Clima e Saúde, que reúne 35 organizações filantrópicas. Os recursos serão destinados a ações integradas que enfrentem simultaneamente as causas das mudanças climáticas e seus impactos na saúde pública. O investimento apoiará a aceleração de soluções, pesquisas e políticas relacionadas ao calor extremo, poluição do ar e doenças infecciosas sensíveis ao clima.
Além da Conferência: A Voz da Saúde Antes e Durante a COP
O engajamento da sociedade civil não se limitou aos dias da Conferência. Em outubro, o Movimento Médicos pelo Clima liderou a entrega da carta “Pela saúde no centro da ação climática”, que reuniu mais de 250 assinaturas – incluindo 70 organizações, movimentos e empresas – com recomendações para que a saúde pública fosse tratada como eixo estratégico nas negociações.
A agenda do durante a COP foi intensa e diversificada, buscando ampliar o debate sobre saúde e crise climática em diferentes frentes, como:
- Oficina preparatória e roda de conversa no COREN-PA: Um dia antes da Marcha Global Saúde e Clima, o Instituto Ar, Movimento Médicos pelo Clima e a Rede GTA realizaram uma oficina preparatória no Conselho Regional de Enfermagem do Pará (Coren-PA). O evento incluiu uma roda de conversa aprofundada sobre saúde e clima, seguida por uma oficina “artivista”, onde foram confeccionadas camisetas e cartazes, transformando a preocupação em expressão e mobilização para a Marcha Global Saúde e Clima.
- Marcha Global Saúde e Clima: A mobilização culminou na “Marcha Global Saúde e Clima”, que ecoou a urgência do tema pelas ruas de Belém, demonstrando a força coletiva.
- Participação em Painéis e Rodas de Conversa: Representantes do Instituto Ar e do Médicos pelo Clima estiveram presentes em diversas casas e espaços de debate, como a Casa Brasil Belém, a Casa das 11 Janelas e a Cas’Amazônia. O objetivo das participações foi levar a voz da saúde, apresentando soluções concretas e debatendo temas que vão do impacto da poluição do ar na saúde respiratória e políticas públicas eficazes, até o uso da tecnologia de IA no combate a incêndios na Amazônia e a defesa da transição energética justa.
Um Chamado à Ação Coletiva
A COP30 mostrou que a saúde está, finalmente, conquistando seu lugar de direito na agenda climática. As conquistas de Belém são fruto de um trabalho incansável de organizações que transformam conhecimento científico em ação e mobilizam a sociedade por um futuro com mais saúde e resiliência.
A missão do Instituto Ar, de “defender a saúde frente à mudança do clima”, nunca foi tão relevante. Como Evangelina Araújo conclui, “O Brasil já está sofrendo com eventos extremos… e nós precisamos agir agora. A mudança climática está acontecendo neste momento. Se não cuidarmos agora, os estragos serão ainda maiores no futuro”.
As sementes plantadas na COP30 por esta vasta rede de defensores da saúde e do clima nos lembram que, juntos, podemos construir um amanhã mais justo e saudável para todos. O caminho é longo, mas as conquistas de Belém nos dão a esperança e a certeza de que estamos na direção certa.